Filhos e os cuidados com os pais

O número de idosos no Brasil cresceu  50% em apenas uma década, segundo dados do IBGE. Atualmente são mais de 30 milhões de brasileiros acima dos 60 anos de idade. 
Estamos preparados para ser pais de nossos pais?


Até 2031, este número deve superar o de crianças e adolescentes.
O que deveria ser uma boa notícia - estamos vivendo mais - traz  diversas preocupações. Principalmente para aqueles que vão necessitar de cuidados e atenção especiais. Não estamos falando apenas dos cuidadores de idosos (atividade que, segndo dados do Departamento de Estatísticas do Trabalho dos Estados Unidos, vai gerar 1 milhão e cem mil vagas nos próximos dez anos), mas do papel fundamental da família e dos filhos.

Seja por doença, fatores limitadores físicos ou simples carência afetiva, os pais demandam cuidados que, muitas vezes, filhos e filhas não estão preparados para oferecer. É uma questão complicada, porque envolve um julgamento moral, além de uma questão legal - o abandono de idoso, caracterizado como incapaz, pode dar até 16 anos de prisão. Não é raro ouvir idosos se queixando do esquecimento por parte da família. De outra parte, filhos se desesperam com a inversão de papéis: o que fazer? Como cuidar dos meus pais?
Fabricio CullmannLevamos estas questões até o Consultor de Carreira Fabrício Cullmann, que estuda o assunto e desenvolve um trabalho neste sentido como parte da conclusão da Pós-graduação em Psicologia Organizacional.

 

Papéis invertidos
Segundo Fabrício, o principal ponto a ser observado é que os papéis se invertem e esta transição acarreta vários comportamentos e atitudes provenientes deste conflito, tanto para os pais quanto para os filhos. "São valores e conceitos que se turvam diante do novo cenário apresentado. Muitos desse público se predispõem a uma certa abertura para absorver e acompanhar a evolução social; contudo, há uma resistência que persiste." Do lado dos pais, um exemplo desse contexto pode ser descrito como uma mãe que sempre teve autonomia de ir e vir, para onde quisesse, e de uma hora para outra, tem que se moldar a não mais sair sozinha, dependendo de um terceiro, devido à problemas de natureza neurológica (esquecimento). "Por outro lado, os filhos passam por situações aos quais nunca foram “alertados” ou melhor dizendo, não foram instruídos para administrar tal situação.", complementa.

 

Perda de Parâmetros
A perda de alguns parâmetros e costumes sociais que também são sintomas dessa fase, se fortalece e entra em choque com o direito de viver a vida do jeito que os idosos querem, muitas vezes sem que a opinião e ajuda dos próprios filhos prevaleça. "Isso se dá devido à longa experiência de vida, independência pessoal, autonomia e responsabilidades que assumiram anteriormente. O processo de envelhecer vem do confronto com essas perdas, o que exige um esforço por parte dos idosos para adaptar-se a essas situações e se reestruturar logisticamente para uma vida melhor.", avalia Fabrício. São inúmeras as manifestações de resistência que impedem aceitar novos modelos para viver melhor e em segurança. O preconceito e a teimosia são alguns dos principais sintomas que sublinham esse processo.
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Superação de Conflitos
Os conflitos passam a fazer parte deste novo cenário, os valores e conceitos antes formados entram em choque. A pluralidade de sentimentos emerge e com isso certos comportamentos se tornam um pouco mais inseguros e duvidosos, e por muitas vezes, uma tomada de decisão revela-se mais complexa e dolorosa.
Para superar e amenizar estes transtornos, existem algumas técnicas e reflexões baseadas em inteligência emocional que podem auxiliar numa atitude, num posicionamento, que se traduza em uma resposta mais simples.
Trabalhar a empatia faz parte também deste exercício. Colocar-se no lugar dos pais e buscar entender alguns comportamentos e sentimentos, com demonstrações de carinho e preocupação, pode ser um caminho para dissolver a impressão que eles possuem de estarem sendo sempre criticados em tudo que fazem e/ou escolhem.
O diálogo é muito importante nessa fase, que de maneira calma e sem imposições pode facilitar a aceitação da nova realidade que os permeia. Ao invés de impor: “Pai, você tem que tomar os remédios no horário! ”, você pode arriscar dessa forma: “Pai, como nós podemos fazer para não perder a hora de tomar os remédios? ”
A conotação e maneira de como conduzir a afirmativa faz toda a diferença quando aplicada de forma clara, explicativa, em algumas situações pausadas, para melhor assimilação e aceitação.

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Diferenças
As situações se mostram de maneiras diferentes, umas mais difíceis, outras mais delicadas; tudo dependerá do comportamento e relacionamento que se tem como base para suprir esse processo. "Temos que ter consciência e capacidade de exercitar a paciência, o bom humor e a atenção às necessidades emocionais e físicas dos nossos pais, fazendo com que não se pareçam como um “fardo” para quem está ao lado cuidando, e muito menos como constrangimento para quem é cuidado.", conclui Fabrício.