Um cenário difícil

Com mais de 13 milhões de desempregados, é quase impossível não encontrar um brasileiro que não se preocupe com o assunto. Se tenho emprego, o que faço, como me mantenho empregado? 

Se fui demitido, como devo agir para retomar a estabilidade profissional e pessoal?Em busca de respostas para estas questões, fomos conversar com a psicóloga e especialista em gestão de carreira Isabel Silva, que falou sobre emprego, desemprego e como lidar estas situações.

Isabel Silva 2Quem está empregado...

"Mesmo que a economia tenha ensaiado uma melhora nestes últimos meses, o quadro ainda é bastante ruim. Minha recomendação para quem esta empregado e por pior que seja a fase que o profissional esteja enfrentando em seu emprego atual, é primeiro: busque se manter no emprego atual enquanto avalia um novo desafio, procure ativamente, com intuito de reduzir o tempo da busca. E só saia quando estiver com data de inicio no novo trabalho. Salvo em alguns casos em que o ambiente seja muito insalubre, ou que a situação tenha atingido um patamar insuportável, recomendo somente sair para uma nova empresa ou desafio. Minha ideia se baseia em dois fatos: um, profissionais de RH e Headhunters preferem avaliar pessoas empregadas, de preferencia em ascensão na concorrência. Dois: o tempo médio de recolocação hoje no Brasil é bastante longo, sendo 11 meses para profissionais mais jovens e até 15 meses para profissionais mais experientes. Portanto quem não tem reserva ou quantias rescisórias estes períodos levam a dramáticas mudanças na economia familiar. Uma pessoa empregada vale mais e pode além de negociar um salário maior conseguir se recolocar mais rapidamente do que um profissional desempregado. angry 3126437 1280Outra sugestão levando em consideração estes complicadores: se, no passado, algumas características pessoais como comportamentos não tão “bem vistos” pela organização passavam por vista grossa em função da dificuldade que as empresas tinham em contratar, reter e desenvolver seus funcionários, hoje o cenário é totalmente o oposto. Atitudes que se distanciam do que a empresa espera servem como motivos para demissões abruptas, altos salários e estruturas infladas são revistas a todo momento. Os problemas são vistos com lupas e os custos acompanhados na ponta do lápis. Portanto a dica é: seja sutil em manifestar sua opinião, evite o confronto direto com colegas e chefia e esteja sempre aberto e novos desafios dentro da mesma posição ou áreas correlatas, como forma de se manter viável para a empresa, mesmo que você não tenha interesse de permanecer muito tempo em seu trabalho atual, faça valer a pena o tempo que você estiver ali, enquanto busca um novo desafio. Seja relevante para você e seu empregador, aproveite a oportunidade atual para aprender e contribuir o máximo que puder e dentro do possível, sair com portas abertas."

A perda do emprego pode gerar danos emocionais?

"Com certeza a perda do emprego é sempre algo sofrido, no mínimo desconfortável, seja quando acontece de forma inesperada ou não, até mesmo quando um profissional pede para sair, a decisão nunca é facilmente tomada e, ao comunicar colegas e superiores, um misto de sentimentos vem à tona.

alone 1869997 1920Para muita gente a profissão tem um papel importante e organizador em seu psiquismo. Trata-se da a forma como esta pessoa se vê no mundo, o que é totalmente normal. A perda de um emprego, mais especificamente quando existe uma grande identificação com o cargo, com empresa ou com os dois, e particularmente quando se trabalha um longo período em uma organização, pode ser sim comparado a dor de uma separação ou até mesmo da morte de um entre querido. Os danos emocionais vão desde uma leve tristeza, sentimento luto, a transtorno de ansiedade ou um quadro de depressão. A profissão certamente é uma fonte de realização pessoal e profissional, através dela também nos proporcionamos a ascensão social, por consequência independência financeira e bens materiais. Estes, que certamente nos ajudam e muito, possibilitando uma vida de mais conforto e prazer. Em alguns casos, a profissão está intimamente vinculada a um lugar de prestigio e de status social. Por todos estes motivos a perda do emprego imita um terremoto na vida e vem acompanhada do medo de devastações ainda maiores, não só representada pela possibilidade da perda de patrimônio como também a do lugar conquistado, erroneamente entendido como direito adquirido. 

Existem “fases de luto” numa demissão? O que a pessoa deve fazer para superar esta etapa e se reerguer?

"Como dito anteriormente a perda do emprego pode representar a dor da perda de um ente querido. Um luto de fato precisa ser vivido, as etapas de luto variam bastante de pessoa para pessoa, basicamente existe o momento do choque em que se nega a realidade e se pode ate encontrar certa dificuldade de produzir uma leitura da realidade ou de conexão com os sentimentos atuais, seguido do momento da raiva, revolta e muito frequente sucedido de tristeza e depressão até o momento final onde se caminha para a elaboração, momento do qual a pessoa tende a aceitar o ocorrido e seguir em frente. O profissional que se encontra nesta situação primeiro terá de entender que ele precisará de tempo para superar o desligamento. Não adianta fazer de conta que não esta acontecendo tentando sufocar o sentimentos. Permita-se sentir.

girl 1906225 1920Algumas pessoas se recolocam tão rapidamente em uma tentativa desesperada de evitar o contato com os próprios sentimentos, que a troca abrupta de ambiente intensifica ainda mais os níveis de sofrimento, aos invés de amenizarem a lacuna deixada pelo emprego anterior. Minha sugestão para o enfretamento desta fase é, primeiro entenda o seu momento e verifique se você tem condições psicológicas de iniciar em ou um outro desafio. Dois, não leve tão à serio as dicas de amigos e parentes, certamente eles querem ajudar, mas na maioria das vezes não são peritos em sofrimento muito menos em mercado de trabalho. Acabam por dar muitas sugestões contraditórias deixando o profissional ainda mais confuso. Terceiro, se você sente que o sofrimento é maior do que você pode carregar, procure ajuda psicológica. Por outro lado, se o sofrimento já esta abrindo espaço para o desejo de um novo desafio, você constata que é chegada a hora de se recolocar, de virar a página, mas você vem procurando emprego por um tempo e percebe não esta tendo sucesso em suas candidaturas, neste caso considere a ajuda de um profissional especialista em carreira/mercado de trabalho, alguém que domine técnicas de entrevistas, busca ativa de vagas e networking. Existe uma variedade enorme, fuja dos processos de coaching, não é isso que você precisa neste momento. Coaching de carreira em sua maioria não é o suficiente para se atingir uma boa recolocação. E por fim não menos importante, mantenha contato com pessoas da sua confiança aproveite o tempo livre para boas discussões, procure se rodear de pessoas positivas, informadas e que tenham real interesse em ajudar. Aproveite para exercitar o networking,  use o menos possível as redes sociais para isso, procure manter contato por telefone ou ao vivo, agende almoços e cafés com aqueles amigos que você nunca tinha tempo para encontrar, não se feche em uma concha."