SIGA-ME

          youtube

Startup - a cara da nova economia

Era uma vez um cara legal que abriu uma startup e viveu feliz para sempre... será? Muitas das empresas da chamada “nova economia” (aquelas baseadas principalmente em negócios de tecnologia e internet) enfrentam dificuldades que você nem imagina.

Seus criadores, normalmente jovens em busca do sonho de não depender de grandes empresas para construir suas histórias de trabalho, precisam aprender muito rapidamente a se virar num ambiente bastante complicado. Não apenas pelas complexidades do negócio, mas também por causa da burocracia e da falta de incentivo por parte dos governos. Antes de seguir falando sobre startups e nova economia, deixa eu contar uma historinha para voces. É sobre o Bruno Rodrigues. Um cara legal, inteligente e preparado. Paulista, torcedor do Santos e campeão de karatê, jovem e com um currículo que já reúne desde uma sólida formação educacional até a experiência de gestão numa grande empresa. Pois um dia o Bruno decidiu que queria empreender. Tinha algumas ideias, que compartilhou com colegas e amigos. Nasceu uma empresa, startup, baseada num conceito de bem-estar, saúde e produtividade: a Go Good.  Mas vamos deixar que o Bruno mesmo se apresente:

O começo

Fui atleta profissional de karatê por 16 anos. Iniciei aos 5 uma rotina de alta perfomance, e aos 21 anos colecionava títulos nacionais (2x campeão brasileiro, 7x campeão paulista) e internacionais (campeão sulamericano e 3o colocado no Panamericano sub 20). Eu não sabia, mas essa seria a minha primeira carreira. Se a remuneração era muito pequena, a formação do meu perfil seria a grande recompensa deste período. Foi quando eu pude desenvolver atributos que utilizo até hoje, como alta competitividade, perseverança, ética e outros.

Academicamente me graduei em Direito, mas fiz uma transição de carreira logo após conseguir meu diploma e a certificação na OAB. Por querer trabalhar com Negócios e ter uma alta vontade de me tornar executivo, busquei programas de trainee e, por acaso, fui aceito no Grupo RBS. Digo que foi ao acaso pois um santista de nascimento e morador da cidade de São Paulo, nunca tinha tido contato com a empresa que eu passaria meus próximos 5 anos.

Na RBS, tive um aprendizado nas mais diversas áreas em todas as unidades de negócios (veículos ditos tradicionais e digitais e áreas de apoio em geral), mas foi no Marketing que me encontrei, liderando equipes de planejamento comercial, branding e desenvolvimento de negócios.

Em 2015 fui selecionado por um curso da Escola de Negócios da Universidade de Stanford, chamado Stanford Ignite, que é focado em empreendedorismo. Neste curso, tive a sorte de ter a minha ideia de negócio (ainda em estágio embrionário) Go Good ser selecionada para ser desenvolvida pelos esforços de um time qualificado e sob supervisão dos professores de MBA de Stanford. Desde o fim do programa empreendo em tempo integral na Go Good. 

Na Go Good, em pouco mais de 2 anos, operamos em mais de 17 clientes, grandes empresas, como PayPal, Porto Seguro e diversas de porte médio, captamos investimento de uma aceleradora no Vale do Silício, e estamos indo para a California acelerar nosso negócio junto a grandes investidores e empresas no berço mundial das startups.

O que motivou a criar uma empresa

Desde que decidi ter uma carreira executiva, questionei pouco se era essa realmente a melhor escolha que poderia ter feito para a minha vida. Me dedicar a esse objetivo traçado anos atrás -  talvez muito influenciado pelo senso-comum que ser um diretor de carreira era a materialização do sucesso - se tornou a minha inércia. Ela só seria quebrada em um momento de grandes mudanças na minha vida pessoal, e a principal delas foi quando me tornei pai. Esse momento me gatilhou uma grande reflexão de como deveria investir o meu tempo profissional. Foi um forte questionamento de impacto e legado. 
Descobri que eu me dedicava durante várias horas para uma atividade que gerava um impacto interno na organização para a qual trabalhava, mas que esse impacto era pouco conectado com o que eu deveria gerar para o mundo.

Foi quando tive a ideia de criar a Go Good, que nasceu para materializar esse impacto. Era uma ideia muito diferente do que ela é hoje. Foi moldada pelo mercado para que se tornasse viável, mas nunca perdeu a sua essência de impactar a vida das pessoas de forma clara e positiva.

A Go Good é uma startup que usa a tecnologia para ajudar as pessoas a serem mais saudáveis. Nossa plataforma ajuda empresas a criarem ambientes de mudança de comportamento para seus funcionários. Usamos conceitos de gamification e conexão com apps e acessórios vestíveis (como relógios inteligentes) para promover 50+ hábitos saudáveis e recompensar os nossos usuários com créditos para ONGs que geram impacto social. Como o caso do PayPal, que realizou o sonho de uma criança com câncer através da ONG Make a Wish pois seus funcionários atingiram 260% da meta bimestral de corrida. Nosso trabalho é ajudar pessoas a serem mais saudáveis, e gerar com isso mais produtividade e menos custos de saúde para as empresas, além de gerar mais recursos para ONGs.

Existem diversos conceitos sobre startups. O que acredito é no tripé: uma empresa em estágio inicial, que possua um mercado de alta incerteza (90% das startups quebram) e que possuam um grande poder de escala (relativo baixo investimento inicial e baixo custo marginal, ou seja, o custo de operar em um novo cliente é significativamente menor conforme a empresa passa a vender mais). Geralmente essa escala é facilitada pelo uso de tecnologia. Por isso acredito que não é todo negócio inovador que é uma startup, e não há problema algum nisso. Mas são classes de negócio diferentes.

Dificuldades e superação

As principais dificuldades no começo foram de conciliar aquela paixão que tínhamos por construir algo impactante com um produto que o mercado estivesse disposto a pagar por ele. 
Não acredito no empreendedor super-herói visionário, que teve uma visão de como o futuro seria de sua cama e saiu no dia seguinte para construi-la. O processo de criação da Go Good foi (e ainda é) totalmente errático. Nosso mérito é a capacidade de errar rápido e descobrir porque estamos errando.
No início fomos ao mercado com três ideias de produtos diferentes. E resolvemos ouvir muito as empresas sobre os problemas reais que eles tinham e pesquisamos muito sobre esses problemas, para chegar em soluções para eles. Precisamos validar se as ideias possuíam, realmente, algum valor.
Acredito que qualquer um que queira empreender terá que ser um grande ouvinte do cliente que pretende ajudar, um grande pesquisador para entender como esse problema está sendo resolvido em outros lugares (do Brasil e do mundo), e um grande executor (principalmente) para transformar um plano em ação, com muita disciplina.
Outro problema muito subestimado é o estado mental do empreendedor. Ele é levado a momentos de enorme pressão financeira ao mesmo tempo que existe grande incerteza sobre o seu negócio. Sobre isto, tive a sorte de ter uma família sempre ao meu lado. Pessoas que me suportaram para que eu pudesse fazer a minha parte como empreendedor. 
A sensação é que empreender é uma oportunidade maravilhosa de construir uma empresa pela qual você está disposto a se dedicar integralmente, de corpo e alma. E que existem infinitas barreiras e você não tem ninguém para culpar pelo seu insucesso. 
Fico pensando: se todos que declaram em entrevistas com RH o chavão que "adoram desafios" estivessem falando a verdade, o número de empreendedores seria muito maior.

Empreender: sim ou não?

Acredito que empreender não tem nada a ver com dom. E também que não são todos que devem empreender. 

Empreender demanda um conjunto de habilidades não-técnicas, chamadas "soft skills", como pré-disposição a risco, tolerância a rejeição (você ouvirá mais "não" do que nunca), prontidão para fazer qualquer coisa pela empresa (de limpar o chão a fazer planilhas de listas de 300 CNPJ de empresas de uma determinada região). E há pessoas que não se interessam por isso. E tudo bem em esperar uma estabilidade maior na carreira, não gostar de ouvir centenas (é sério) de "nãos" por mês, alguns seguidos de um descrédito agressivo sobre toda a sua empresa.

Empreender é uma alternativa de carreira sensacional para quem consegue entender de fato os desafios de construir a sua própria empresa, e se possui realmente a capacidade para ir contra as estatísticas de mortalidade de empresas. Ou melhor. Para quem mesmo sem entender na integralidade estes fatores decide assumir o risco de aprender tentando. Me incluo neste exemplo. E daqui posso dizer que é uma trajetória sensacional, com altos e baixos, mas com um senso maravilhoso de estar fazendo a coisa certa.

Por isso não acredito que empreender é uma questão de desafiar o impossível, de ir atrás dos sonhos, de auto-ajuda vazia. Acredito que é estudo, suor, erro, aprendizado, rejeição, entender riscos e mudanças de planos. Tudo isso em um ciclo infinito. E que apesar de não ser uma trajetória fácil, vale a pena.

Ben Horowitz, empreendedor destaque do Vale do Silício, em seu livro "O lado difícil das situações difíceis", fala que "como CEO, eu dormia como um bebê, acordava a cada 2 horas e chorava". 

Ele tomou decisões de altíssimo risco na gestão de sua empresa e isso afetou sua paz. Não são todos os empreendedores que decidem ir pelo mesmo caminho. Você pode empreender e decidir não assumir todos os riscos que enxerga. Você pode empreender e ser feliz com algum conforto nessa jornada. Não é porque você comprou uma Ferrari que precisa andar acima de 300 km/h a todo momento.

Há também o empreendedor que decide criar uma empresa para ganhar dinheiro. São os primeiros a falhar. Logo cedo descobrem que você ficará anos com uma remuneração menor do que o mercado está disposto a te pagar para que futuramente, caso dê muito certo, você possa ganhar algum dinheiro. 

Empreender pelos motivos certos é mais importante do que decidir empreender.

Conheço muitos empreendedores jovens que demonstram comprometimento e resiliência em situações de alta pressão e empreendedores maduros que demonstram altíssima capacidade de inovação e de tomada de risco. Acredito que quando falamos em empreendedores, não devemos tratar "gerações", mas indivíduos. 

E o que vemos no mercado é que empreender nos coloca à prova sobre humildade, comprometimento, e capacidade de lidar com críticas. Você é posto a prova diariamente. Alguns empreendedores decidem atribuir o sucesso a seus esforços e o fracasso a fatores externos, independente de geração.

Costumo dizer que empreender é lidar diariamente com a sua ignorância e conseguir tirar um resultado positivo disso. Não importa a sua idade, e sim como você vai criar uma forma de sair dessa situação todos os dias.

Para quem quer empreender...

Estude muito. Entenda o que são riscos evitáveis e inevitáveis. Mitigue os evitáveis. Não chegue despreparado para essa jornada, pois isso pode custar todo o seu dinheiro e até a sua saúde. Descubra o que realmente te motiva no empreendedorismo. Se você descobrir que a trajetória já vai te fazer feliz, e que a felicidade não está condicionada a alguma meta específica (como vender a empresa por milhões para o Google), você está perto de descobrir que vale a pena.

E se realmente for empreender, curta a jornada e o aprendizado. Não será fácil, mas profissionalmente acredito que nada te gerará uma sensação tão motivante de estar criando o legado que você espera deixar para o mundo.